Morreste-me.
E contigo uma parte tão grande de mim. Morreste-me e eu não vou beber mais o café com leite e molhar o pão que o padeiro deixava pendurado na porta. Não me sabe ao mesmo. Morreste-me e eu nunca mais vou poder ler Júlio Dinis, que Uma Família Inglesa só teve piada quando a história foi contada por ti. Morreste-me, e o meu coração ainda palpita quando alguém liga àquela hora, ou quando no visor do telemóvel vejo o «teu» número. Morreste-me e eu sei de cor as tuas mãos. Brancas, alvas, sempre geladas, protectoras.
Morreste-me, e ainda assim continuo a viver.
Sabes? Comemorámos o aniversário da B., este ano. E testemunhámos o seu baptismo. Comemorámos também o aniversário do avô. Ele não queria, mas nós insistimos. Ah, ele foi à terra. Não queria ir, mas nós insistimos. E estamos todos bem, e de saúde, não te preocupes com isso, sim? Os meninos não estão doentes, e à hora a que costumavas ligar já estamos todos em casa. O P. continua desempregado, mas há-de arranjar-se. O F. vai ter um menino. Já se sabe. E há-de correr tudo bem com este também. O G. é um menino muito bom, e simpático, e ia gostar tanto das tuas bolachas. Nós damos-lhe, não te preocupes, e à E. também, que ela ainda as pede. O padrinho não teve herpes este ano e fala de ti, descontraidamente. A mãe ainda não pode apanhar sol, e ainda não foi à praia este ano, mas está melhor. E vai ficar boa. E ela fala de ti. Com saudade.
Morreste-nos, mas continuamos vivos, e juntos e unidos e de saúde.
P. S. Há uma variante no pequeno-almoço lá de casa. Café com leite e pão para molhar. Eles ainda não estão habituados, mas hão-de gostar. Não há café da manhã como esse.
Soledade - Saudade
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Nirvana da maternidade
Sabemos que estamos prestes a atingi-lo quando o nosso filho mais velho é «apanhado» de manhã a fazer a própria cama, para «teres menos trabalho, mamã», e a nós só nos apetece chorar.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Faz o que eu digo, não faças o que eu faço
«Ai, que nunca os vou encher de actividades; ai, que precisam de brincar e não têm tempo para isso hoje em dia, com tanta actividade.»
Aos 5 anos e meio:
- Natação. É um pró naquilo, adora mergulhar, nada que se desunha. Não fosse as restrições climatéricas e ganhava guelras, com toda a certeza.
- Inglês. Ah, e tal é a única actividade da escolinha que «me» faz sentido. Já fazia o ano passado. Ele adora. E conta, e pinta, e brinca.
- Música. Vão estrear-se ambos. É experiência, mas acho que faz todo o sentido, se tivermos em conta o «sentido musical de ambos».
O mais novo só falha o inglês.
Eu sinto-me um autocarro da Carris.
Aos 5 anos e meio:
- Natação. É um pró naquilo, adora mergulhar, nada que se desunha. Não fosse as restrições climatéricas e ganhava guelras, com toda a certeza.
- Inglês. Ah, e tal é a única actividade da escolinha que «me» faz sentido. Já fazia o ano passado. Ele adora. E conta, e pinta, e brinca.
- Música. Vão estrear-se ambos. É experiência, mas acho que faz todo o sentido, se tivermos em conta o «sentido musical de ambos».
O mais novo só falha o inglês.
Eu sinto-me um autocarro da Carris.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
A rainha dos foras
Chegaram as fotos do período da praia, da escolinha.
Procuro, procuro, procuro e onde está o M é a pergunta que se impõe.
Nowhere é a resposta!
Procuro, procuro, procuro e onde está o M é a pergunta que se impõe.
Nowhere é a resposta!
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
One second they are here, the other they are not
E passei estas férias pelo maior de todos os sustos. (Não com os meus, mas com a filha de uma amiga, que estava connosco.)
E todo o cuidado é, facto, pouco, é tudo o que tenho a dizer.
E todo o cuidado é, facto, pouco, é tudo o que tenho a dizer.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Sinceridade, acima de tudo
- Estou gira, não estou?, pergunto eu, já sempre à espera da resposta típica do mais novo, que me estraga com mimos.
- Isso não é pijama, pois não, mãe? É roupa, pois é?
:S
- Isso não é pijama, pois não, mãe? É roupa, pois é?
:S
quinta-feira, 8 de julho de 2010
9 anos
e o gajo lá de casa, que podia muito bem ser eu, esqueceu-se da data, o que ofendeu a gaja (romântica) lá de casa, que podia muito bem ser o marido, que ainda assim trouxe o habitual e fabuloso ramo de flores.
(Shame, shame, shame)
(Shame, shame, shame)
Irmandades
Os vírus propagaram-se e fiquei em casa à vez com cada um deles. O mais velho gosta da condição filho-único-de-vez-em-quando e aproveita. O mais novo, que nunca soube o que era ser filho único, e que o diz q toda a gente (Eu sou o mais novo, o mano é o mais velho), mais do que não aproveitar os poucos e raros momentos de filho único, não o sabe ser. Depois de um dia inteiro comigo, em que até fomos buscar o irmão cedo, o dito apagou no sofá ao final da tarde, que isto de ser criança e ter que andar na praia e nos passeios com os amigos, recém-recuperado de uma virose, cansa, e de que maneira.
E o mais novo, abeira-se de mim, choroso, 10 minutos depois: Estou t'iste! Não tenho ninguém para brincar comigo!
E o mais novo, abeira-se de mim, choroso, 10 minutos depois: Estou t'iste! Não tenho ninguém para brincar comigo!
segunda-feira, 21 de junho de 2010
A mediania e a excelência
Eu não gosto (particularmente) de futebol, mas fiquei feliz com a vitória esmagadora, e não acho que eles tenham passado de muito maus a muito bons. Continuaram a ser medianos. Tiveram um momento de excelência.
Eu não gosto (particularmente) da escrita de Saramago, mas fiquei triste com a morte de um nome maior da língua portuguesa, e não acho que ele tenha passado a ser melhor ou pior pessoa com a morte, mas continua(rá sempre) a ser um grande escritor. Teve momentos medianos, será sempre um escritor de excelência.
Eu não gosto (nada) do Cavaco Silva presidente, e senti-me ultrajada que o Aníbal sobrepusesse os afazeres familiares aos deveres de Estado. Mas nunca contei com grandes actuações, nem da parte da pessoa, nem da parte do presidente. Foi sempre mediano. Não conhecerá nunca a excelência.
Eu não gosto (particularmente) da escrita de Saramago, mas fiquei triste com a morte de um nome maior da língua portuguesa, e não acho que ele tenha passado a ser melhor ou pior pessoa com a morte, mas continua(rá sempre) a ser um grande escritor. Teve momentos medianos, será sempre um escritor de excelência.
Eu não gosto (nada) do Cavaco Silva presidente, e senti-me ultrajada que o Aníbal sobrepusesse os afazeres familiares aos deveres de Estado. Mas nunca contei com grandes actuações, nem da parte da pessoa, nem da parte do presidente. Foi sempre mediano. Não conhecerá nunca a excelência.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Futeflores
Um fala dos jogadores da selecção: Nanis, Danis, Cristianos.
o outro é um visionário e diz que é o Mourinho.
(Charme não lhe falta, digo eu!)
o outro é um visionário e diz que é o Mourinho.
(Charme não lhe falta, digo eu!)
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Life goes on...
Passa por mim quase todos os dias. Moto vintage, capacete a condizer, roupa fashion, mala a tiracolo, óculos de sol gigantes. Pára ao meu lado, no sinal vermelho. Ziguezagueia por entre os carros e vai-me deixando, invariavelmente, para trás. E eu, mais do que invejar-lhe a mobilidade, invejo-lhe os sapatos.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Rosas (ou cravos) Vermelha(o)s, SEMPRE!
Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.
E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
- Mãe!
E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
- Mãe!
E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:
- Coragem!
Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).
E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:
- Bom dia!
era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:
- Bom dia!
de cabeça erguida era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.
Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:
- Bom dia!,
mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:
- Mãe!
A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.
No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.
(in Praça da Canção) Copyright © Manuel Alegre
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.
E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
- Mãe!
E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
- Mãe!
E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:
- Coragem!
Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).
E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:
- Bom dia!
era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:
- Bom dia!
de cabeça erguida era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.
Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:
- Bom dia!,
mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:
- Mãe!
A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.
No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.
(in Praça da Canção) Copyright © Manuel Alegre
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Glamour vs vida de mãe
Ao sábado à noite saímos com amigas, rimos imenso, vamos ao sítio da moda, tiramos fotos tontas, deitamo-nos tarde (para os padrões de mãe), dormimos 4 ou 5 horas (que os filhos não deixam espaço para mais), mas levantamo-nos bem-dispostas e de bem com a vida, que as saídas de adultos sabem-nos pela vida. Vestimos uma roupa bonita, insistimos no salto alto, vamos à festa e damos nas vistas pelo modo como deslizamos pela pista, em cima dos saltos de 11 cm.
Depois de deitadas as crianças, ainda há tempo para escolher o menu do jantar do dia seguinte, preparar todas as mochilas, deixar pão a fazer (há poucas coisas tão boas quanto acordar de manhã com o cheiro de pão quente. Só o de café, talvez.), arrumar as roupas que se passaram entretanto, deitar um último olhar à casa antes de dormir e perceber que está tudo a postos para o início de semana.
E de repente...
Durante a noite, o filho mais velho sente-se indisposto, as horas de sono em atraso acusam-se, mas ainda assim levantamo-nos para ajudar a criança, mudamos cama, lençóis, damos banhos às 2 da manhã, acarinhamos e abraçamos a criança indisposta. Custa-nos voltar a pegar no sono. E voltamos a levantar-nos para acudir o mais novo, que só queria água, mas nesta coisa da maternidade, quem já viu um vómito sabe que ele raramente vem só. Voltamos a adormecer com a mente em turbilhão.
À segunda-feira de manhã não há despertador que nos acuda, levantamo-nos todos já atrasados, vestimos putos a correr, não sabemos bem se o nosso oufit combina com alguma coisa, que os olhos formigam de sono, a casa fica num caos, com tanta desarrumação, corremos, comemos, sem sequer apreciar condignamente o cheiro do pão acabado de fazer. Respiramos fundo quando finalmente nos pomos a caminho, com os putos entregues vestidos, comidos, mas desgrenhados, com a boca ainda suja da papa que já não tivemos tempo para limpar. Damos uma olhadela ao espelho e temos os olhos vermelhos da noite mal dormida, olhamos as unhas ainda pintadas da girls night out, mas o glamour já era: verniz ratado, cabelo desgrenhado, olhos inchados, roupa amarfanhada.
Este é o melhor dos cartões de visita. (It's written all over my face.) Bom dia, o meu nome é Flores, e sou mãe, mas não deixei de ser mulher. E consigo, «more or less», conjugar isto tudo. :D
Depois de deitadas as crianças, ainda há tempo para escolher o menu do jantar do dia seguinte, preparar todas as mochilas, deixar pão a fazer (há poucas coisas tão boas quanto acordar de manhã com o cheiro de pão quente. Só o de café, talvez.), arrumar as roupas que se passaram entretanto, deitar um último olhar à casa antes de dormir e perceber que está tudo a postos para o início de semana.
E de repente...
Durante a noite, o filho mais velho sente-se indisposto, as horas de sono em atraso acusam-se, mas ainda assim levantamo-nos para ajudar a criança, mudamos cama, lençóis, damos banhos às 2 da manhã, acarinhamos e abraçamos a criança indisposta. Custa-nos voltar a pegar no sono. E voltamos a levantar-nos para acudir o mais novo, que só queria água, mas nesta coisa da maternidade, quem já viu um vómito sabe que ele raramente vem só. Voltamos a adormecer com a mente em turbilhão.
À segunda-feira de manhã não há despertador que nos acuda, levantamo-nos todos já atrasados, vestimos putos a correr, não sabemos bem se o nosso oufit combina com alguma coisa, que os olhos formigam de sono, a casa fica num caos, com tanta desarrumação, corremos, comemos, sem sequer apreciar condignamente o cheiro do pão acabado de fazer. Respiramos fundo quando finalmente nos pomos a caminho, com os putos entregues vestidos, comidos, mas desgrenhados, com a boca ainda suja da papa que já não tivemos tempo para limpar. Damos uma olhadela ao espelho e temos os olhos vermelhos da noite mal dormida, olhamos as unhas ainda pintadas da girls night out, mas o glamour já era: verniz ratado, cabelo desgrenhado, olhos inchados, roupa amarfanhada.
Este é o melhor dos cartões de visita. (It's written all over my face.) Bom dia, o meu nome é Flores, e sou mãe, mas não deixei de ser mulher. E consigo, «more or less», conjugar isto tudo. :D
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Too much Dan Brown?!
No seguimento de uma conversa com o mais velho que me ia perguntando sobre a Páscoa e o seu significado, falo em Maria Madalena. Pergunta o mais novo: Qual Madalena, a da minha escolinha? Respondo eu: Não, a Maria Madalena era a namorada de Jesus, mas cchhhhiiiiuuuu, que algumas pessoas não gostam que se diga isso.
AVÓ, A MADALENA ERA A NAMORADA DO JESUS, SABIAS?
AVÓ, A MADALENA ERA A NAMORADA DO JESUS, SABIAS?
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Páscoa
Trocámos as tradições a Norte pela placidez alentejana.
Esta Páscoa fez-se de putos que andam de bicicleta como se não houvesse amanhã e fazem ralis e pedem espectadores e aplausos, de outro miúdo que se manda do monte de lenha abaixo porque andava a apanhar comida para dar aos ca(r)neiros, fez-se de borrego, de tigeladas, de sol, de luz maravilhosa, de primos, de tios, e de conversa: muita, e da boa.
Esta Páscoa fez-se de putos que andam de bicicleta como se não houvesse amanhã e fazem ralis e pedem espectadores e aplausos, de outro miúdo que se manda do monte de lenha abaixo porque andava a apanhar comida para dar aos ca(r)neiros, fez-se de borrego, de tigeladas, de sol, de luz maravilhosa, de primos, de tios, e de conversa: muita, e da boa.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Coisas boas de eles crescerem
Pensa-se menos nas questões da maternidade (pelo menos, por enquanto. Deixa lá chegar a pubescência.) e usufrui-se mais deles, da relação entre eles e da nossa relação com eles.
História da noite, antes da hora de dormir, contada dentro da tenda montada na sala, na penumbra, para dar um ar mais assutador à narrativa do lobo e do capuchinho antecedida por jogo das palavras (ainda tentámos os desenhos, mas a minha inabilidade para desenhar é proporcional à incapacidade deles de adivinhar o dito desenho. Há que cingirmo-nos àquilo em que somos bons - cof cof).
Alguém (que pode ser uma mãe) sussurra uma palavra/acção a outro alguém (que pode ser um dos filhos). O filho tem que exemplificar a acção por gestos. O outro filho e o adulto que resta tentam adivinhar a palavra/acção em causa.
O «pior» é quando o filho mais novo não sabe representar a palavra que lhe foi sussurrada, tipo acampar.
O que é que se faz?
Exemplifica-se na prática e monta-se um acampamento na sala.
Há coisas fantásticas, não há?
ou
ter filhos é do melhor que há para voltarmos nós próprios à infância...
História da noite, antes da hora de dormir, contada dentro da tenda montada na sala, na penumbra, para dar um ar mais assutador à narrativa do lobo e do capuchinho antecedida por jogo das palavras (ainda tentámos os desenhos, mas a minha inabilidade para desenhar é proporcional à incapacidade deles de adivinhar o dito desenho. Há que cingirmo-nos àquilo em que somos bons - cof cof).
Alguém (que pode ser uma mãe) sussurra uma palavra/acção a outro alguém (que pode ser um dos filhos). O filho tem que exemplificar a acção por gestos. O outro filho e o adulto que resta tentam adivinhar a palavra/acção em causa.
O «pior» é quando o filho mais novo não sabe representar a palavra que lhe foi sussurrada, tipo acampar.
O que é que se faz?
Exemplifica-se na prática e monta-se um acampamento na sala.
Há coisas fantásticas, não há?
ou
ter filhos é do melhor que há para voltarmos nós próprios à infância...
quarta-feira, 10 de março de 2010
A verdadeira irmandade
Pediu para dormir com o irmão, planeou tudo, como só ele, avisou toda a gente. E disse que seria para sempre, num ímpeto fraternal pouco habitual nele, mais habituado a ser ele o rei e o outro o subordinado.
O ímpeto durou uma noite. Na manhã seguinte avisou o mais novo de que acabara de ser despejado da cama dele. Que se mexe muito, acusou, e dormiu mal.
(Quanto a mim, foi giro, enquanto durou.)
O ímpeto durou uma noite. Na manhã seguinte avisou o mais novo de que acabara de ser despejado da cama dele. Que se mexe muito, acusou, e dormiu mal.
(Quanto a mim, foi giro, enquanto durou.)
terça-feira, 2 de março de 2010
Tenho que começar a cozinhar mais
ou a explicação do porquê de a comida da mamã ser sempre a melhor de tod'ó mundo.
«Uma mão, o seu calor, o seu amor são a força, a vida. Não é essa mão que alivia as dores, que apazigua os corações, que reaquece as almas, que proporciona simpatia, acalma uma criança, consola, massaja, cura, ama, transmite tudo o que as palavras não conseguem dizer, os médicos curar, os medicamentos tratar? Os alimentos preparados por essa mão estão impregnados
de chi, dessa força vital tão cara aos Orientais.
Pão amassado à mão, esparguete feito em casa pela mamma italiana, bolachas de cereais dos Africanos, bolinhas de arroz dos Japoneses, a quiche lorraine preparada com amor por uma mãe francesa..., todos esses alimentos nutrem e, estranhamente, saciam infinitamente mais do que os seus sósias comerciais. Porquê? Esses alimentos atingem directamente o coração, proporcionam calor e bem-estar. É esse amor, esse chi, que nos alimenta, que nos dá força, tanto ou mais do que os melhores alimentos do mundo.»
Dominique Loreau
Nigellas desta blogosfera, Frenny, Zuza, anyone!, preciso de ajuda, please!!! :D
«Uma mão, o seu calor, o seu amor são a força, a vida. Não é essa mão que alivia as dores, que apazigua os corações, que reaquece as almas, que proporciona simpatia, acalma uma criança, consola, massaja, cura, ama, transmite tudo o que as palavras não conseguem dizer, os médicos curar, os medicamentos tratar? Os alimentos preparados por essa mão estão impregnados
de chi, dessa força vital tão cara aos Orientais.
Pão amassado à mão, esparguete feito em casa pela mamma italiana, bolachas de cereais dos Africanos, bolinhas de arroz dos Japoneses, a quiche lorraine preparada com amor por uma mãe francesa..., todos esses alimentos nutrem e, estranhamente, saciam infinitamente mais do que os seus sósias comerciais. Porquê? Esses alimentos atingem directamente o coração, proporcionam calor e bem-estar. É esse amor, esse chi, que nos alimenta, que nos dá força, tanto ou mais do que os melhores alimentos do mundo.»
Dominique Loreau
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
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