quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Às crianças o que é das crianças

A discussão anda por aí, a propósito do lançamento pelo jornal Sol de uma colecção de clássicos adaptados às crianças. Um dos primeiros a sair foi Os Maias, do Eça, adaptado por José Luís Peixoto.

Duas coisas importa aqui definir; crianças de que idade e o que se entende por clássicos.

Como leitora e responsável pela iniciação à leitura de 2 crianças «assusta-me» que se adaptem Os Maias (um dos meus livros favoritos de sempre) para as crianças e que entre os clássicos possa estar Eurico, O Presbítero (brincadeirinha), de Alexandre Herculano (um dos meus ódios de estimação)

Ainda que a palavra adaptação possa fazer a diferença (quem é que não tomou conhecimento do universo de Herman Melville através das adaptações para criança de Moby Dick?), como é que se adaptam para crianças os temas fortíssimos que Eça, por exemplo, aborda neste livro. Mais: como é que se adapta para crianças todo um estilo literário?

Livre-arbítrio, claro, mas o que não falta por aí são papás/mamãs desprevenidos que acham que estão a prestar um bom serviço aos filhos.

24 comentários:

Repolha disse...

Só lendo... Mas assim do nada não me choca. Conheci muitos escritores em criança (8/9 anos talvez) através de uma BD da RTP que se intitulava exactamente os clássicos e nem por isso deixei de ler muitos dos originais mais tarde. Aliás - pensa nas histórias que contamos às nossas crianças e que pouco têm a ver com os originais: tipo na cinderela em que, se a memória não me falha, as manas más chegaram a cortar os pp pés para que estes servissem no sapatinho (blargh).
Além disso, é destinado a que público-alvo? A um público infanto-juvenil, não?
Até fiquei curiosa, para ser honesta - porque fazer uma adaptação dessas é um desafio e tanto.

bjinhos

Karla disse...

A mim faz-me um bocadinho de espécie a ideia da adaptação de um livro, confesso. Lembro-me de ler uma vez (a ideia não é minha, mas não me lembro onde li) um texto onde se dizia mais ou menos o seguinte: por que razão se adapta uma obra de arte? Alguém se lembraria de pegar numa peça de Mozart e retirar-lhe algumas notas por serem "muito complicadas"? Passa pela cabeça de alguém simplificar um quadro de Picasso? Então com que direito se adapta uma obra literária?

Concordo com este ponto de vista. Acho que se a criança não tem maturidade/entendimento para ler determinado texto, espera-se até que tenha. Mas ainda que não pensasse assim, far-me-ia uma confusão incrível dar Os Maias a ler a crianças. São temas fortes, complexos e que a meu ver não são adequados a crianças. Querem dar-lhes a conhecer Eça? Então A Cidade e as Serras? Os Contos (não todos os contos, mas alguns)?

(também amei Os Maias e nem consegui ler o Eurico, o Presbítero)

Luísa disse...

Não me posso pronunciar porque ainda não li nenhum. Penso que se destinam a meninos acima dos 6 anos, ou estarei errada? Penso que estas adaptações quando bem feitas podem ajudar para que quando forem mais velhos lerem o original.
Lembro-me que tinha uns 8 anos quando me ofereceram uns "Lusíadas contados aos jovens" que adorei. E que me ajudaram imenso a penetrar no original quando dei os Lusíadas no 9º ano a português.
Mas há clássicos e clássicos, claro. Estou como a Karla, para introduzir o Eça se calhar era melhor A Cidade e as Serras e não Os Maias (que devorei quando tinha 15 anos e ainda hoje é um dos meus favoritos). Concordo com Gil Vicente. Porque não Fernão Lopes? Penso que era uma boa forma de introduzir As Viagens da Minha Terra para depois não odiarem o livro como eu. Mas Herculano? Valha-me Deus!

Desculpa o testamento

Beijinhos

Flores disse...

Carla (repolha),

claro q sim, só lendo e neste caso ainda mais pq cada adaptação é feita por um escritor diferente.

O último livro que comprei para eles é uma adaptação, não dos clássicos, mas dos livros infantis e é fantástico (melhor do q algumas das histórias originais. :D), mas Os Maias???

Márcia Carvalho disse...

Os pais/mães são um público fantástico! É uma questão de consumismo...

Cristina disse...

Eu confesso que estou a fazer a coleccção mas ainda nem tempo tive de ler. Mas pensei mais num público alvo a partir dos 8 anos. Aliás, acho que comprei mais para eu ler do que dar a ler à Nor... LOL sou uma fanática por colecções! LOL

Bjos

Cristina

Mar disse...

Eu tenho Os Maias e o Amor de Perdição, porque eram grátis.

Ainda não abri Os Maias. Gosto muito do José Luís Peixoto, mas a tarefa de adaptar este livro é particularmente ingrata. Ainda assim, estou como a Repolha, acho que ter memórias de infância da história até pode ser uma maneira de motivar os miúdos, mais tarde, a ler os originais.

Quanto ao Amor de Perdição, que, com o Eurico, está na lista dos meus ódios de estimação, tenho a dizer que é um óptimo resumo, nem é preciso ler o "verdadeiro" mais tarde, excepção feita para três fantásticas páginas em que se descreve um convento.

Mar disse...

Ó Karla, lembrei-me agora da maneira como a nossa geração foi apresentada à música clássica: com a Ana Faria e o Brincando aos Clássicos.

Era uma adaptação para crianças, escolhiam-se os trechos mais audíveis e acrestava-se uma letra infantil. Eu gostava muito, tu não? ;)

Karla disse...

Tens toda a razão, Mar. Eu não só gostava como ainda gosto.

OK, mea culpa, não estou a ser coerente, mas o que é certo é que me incomodam as adaptações literárias. Não que ache que não devam existir, atenção, "a chacun son goute", mas até ver prefiro ir dando as coisas a ler às minhas filhas conforme ache que vão tendo idade para elas. E continuo a achar que não se tem idade para o conteúdo de Os Maias enquanto não se tiver idade para a forma.

(De resto, é um pouco diferente. A própria Ana Faria diz que o disco não pretende ser um meio de introdução à música erudita. E arranjar letras para determinada melodia é coisa que todos nós fazemos - bom, pelo menos nós cá em casa, hehehe. Vejo o Brincando aos Clássicos menos como uma adaptação e mais como uma brincadeira com a música. Mas entendo o que quiseste dizer, e é verdade que não há muita coerência no que digo, mas é o que sinto...)

Flores disse...

Karla,

somos umas pudicas, é o q é. :) Eu ando aqui às voltas com a questão do como é q se adapta (para as crianças) uma história de incesto.

Mar disse...

Mas é isso que eu acho que os livros são: uma brincadeira em torno de obras famosas, que todos os pais mais ou menos conhecem porque as estudaram na escola. Aquilo como introdução à literatura portuguesa não vale nada!

A mim faz-me mais impressão que a Ana Faria, porque eu não sei quase nada de música, muito menos de música erudita e acho que sei alguma coisa sobre literatura. Por isso é que ver livros de que gosto (como os Maias) "adaptados" me faz alguma confusão. Já o Amor de Perdição e o Eurico acho lindamente, não me importo que os "estraguem", LOL!

Karla disse...

Flores: É um conceito discutível ao máximo, mas li isto uma vez e subscrevo: a idade para se ler um livro é quando ele deixa de fazer mal e passa a fazer bem.

Podemos perder dias, semanas, meses a discutir o que é "fazer mal" e o que é "fazer bem", mas correndo embora o risco de ser considerada pudica, acho que não se ganha nada em introduzir a uma criança de 6, 8, 10 anos o conceito de incesto.

Mar, tens razão. Visto por esse prisma, tens razão. Isto de não gostar de adaptações, em mim, já vem de longe, e logo Os Maias acho péssimo, pelas razões acima apontadas. E se calhar é isso, acho que sei um bocadinho mais sobre literatura (não muito, não muito) que sobre música, e então toca-me mais fundo.

Flores disse...

Karla,

é isso mm. Eu nem me acho mto pudica, mas ñ consigo perceber como se explica, e q bem traz, a uma criança, um livro cujo tema central é o incesto. Ainda q seja um dos livros mais bonitos q já li.

Mar disse...

Pronto, eu ia perguntar se vocês acham realmente que o tema central d'Os Maias é o incesto. É que eu não acho nada - ainda que os temas que me parecem centrais no livro sejam igualmente difíceis de explicar a crianças. Mas entretanto fui ver o livro adaptado e ali o tema é, de facto, o incesto.

Olhem, como introdução aos Maias eu aconselho mesmo é o Eça Agora!, da Alice Vieira e outros, que é muito divertido e em que não há incesto nenhum! ;)

Karla disse...

O livro tem outros temas, a crítica social é dominante (mas que interesse tem a crítica à sociedade do séc. XIX para uma criança?)... mas o incesto é central ao ponto de, excluindo esse factor, o livro não fazer sentido.

Flores disse...

Mar,

Eu juro q vou reler Os Maias este ano - está na lista - mas sendo ou ñ uma questão central, é, sem dúvida, uma questão incontornável da história.

Flores disse...

Debate em directo. :D

Mar disse...

Isto começa a parecer-se com um Clube do Livro!

(e se montássemos um clubinho do livro?) ;)

Flores disse...

Estilo bookcrossing. :D Conheces? Ou aquela coisa americana (os gaIjos têm coisas giras, ainda q custe admitir, :D dos clubes de leitura/discussão de livros?

Karla disse...

Boa!!!

Mar disse...

Pois, era isso, um blogo-clube de leitura! :)

Repolha disse...

perdi o fio... ohhh

mas já agora, fora de tempo e correndo o risco de ser pudica a menos, não vejo qual o problema de falar de incesto (e aqui a discussão tb dava panos - até a Igreja já aceitou casamentos entre irmãos "estranhos"; o incesto está relacionado com os laços afectivos ou sanguíneos?) a alguém com 8 anos. Com 8 anos hão-de saber mais do que nós sabíamos aos 16 :) E, pensando bem, aos 10 estava a ler livros como tarrafal ou o dossier pide lol (n sei o que será pior :P).

Pessoalmente não vejo uma adaptação como um desvirtuar - principalmente quando se trata de uma adaptação destinada a um público específico como o infanto-juvenil. Acho a ideia excelente... Já o resultado não sei - digam-me qd lerem :)

Cool Mum disse...

Cheguei um dia atrasada!
Clubinho, o mais possível!
Eu votava n'A Relíquia
Ainda não os li, mas não me choca a ideia das adaptações, em teoria, como introdução à obra, seja ela qual for.

Terra Mãe disse...

Com estes posts todos, já não preciso de ler o livro! Penso que é um desafio fazer uma adaptação a este nível. Será que vale a pena? Posso esperar por uma resposta? Se formos a ver, quase todos os contos tradicionais são originalmente longas histórias que foram sumariamente escritas.

Tenho andado a repensar na aquisição de livros para 'mais tarde precisar'. Os liliputianos provavelmente vão preferir as pesquisas no computador. Já começa a acontecer ao mais velho. temos que reconhecer que há mudanças. As enciclopédias estão em perigo de extinção?