Tinha 17 anos e fez-se à vida. Era o segundo mais velho de 6 irmãos. A mais velha era uma rapariga. E ele sentiu-se na obrigação... Corria o ano de 1965 e as perspectivas de vida na aldeia do interior eram limitadas. Fez-se à estrada com 17 escudos no bolso, emprestados pelo senhor da aldeia, rumo à grande cidade e na mala, mais do que pertences e o medo de falhar, a esperança, certamente.
A vida na aldeia não dava espaço para lamúrias. As crianças nasciam ao ritmo de 2 em 2 ou 3 em 3 anos. Poucos dias depois iam, enfiadas dentro de um cesto, com a mãe, para a lavoura. Enquanto mamassem. Quando deixassem, passavam a ficar em casa, ao cuidado da irmã mais velha. Os rapazes eram, desde logo, iniciados na vida do campo. Ajudavam no que podiam. Vestiam roupa lavada aos domingos para ir à missa. Roupa herdada e remendada e ouviam um ralhete quando a seguir ao culto iam jogar à bola. (Que era a melhor roupa que tinham. Que não a podiam estragar.) As botas nunca as chegavam a beliscar, que à chegada ao campo, e dada a preciosidade e raridade do calçado, era a primeira coisa de que se livravam. Jogavam com uma bola feita de trapos. Descalços, e felizes.
Às refeições, sentados todos à volta da mesma mesa, servia-se o caldo ao pai, primeiro, que a esse não podiam faltar as forças, e a seguir dividia-se o pouco que havia entre todos os outros. Aos domingos amassava-se a farinha e fazia-se o pão que havia de durar toda a semana.
Chegada a idade, iam todos à escola, lá na outra aldeia. Caminho feito a pé, monte acima, monte abaixo, duas vezes por dia. A correr, sempre a correr, que era preciso ir com as vacas à tarde, ou apanhar lenha. Passou o exame final com distinção e voltou ao campo que as letras e os números não alimentavam bocas.
No Verão, havia festas e romarias e os rapazes escapavam-se, já não para jogar à bola, mas para um pé de dança nos bailaricos populares. E havia roupa nova para os mais velhos. Que até podia ser uma samarra, mas que era nova e, como tal, merecia ser vista por todos.
E assim se leva a vida. E aos 16 anos começa a consciência de que falta tudo, ou quase tudo, naquela casa, e ainda há crianças para criar. Entre o ir e o ficar, não há dúvida possível. E faz-se ao caminho. Com 17 escudos no bolso, uma mala cheia de esperança e a grande cidade à vista.
Instalado, empregado, acomodado, mandou vir os outros, um por um.
Já passou mais anos na grande cidade do que na pequena aldeia. Não esquece o frio, a fome, a pobreza, mas acima de tudo, não esquece, como nunca esqueceu, aquilo que lhe aqueceu a alma então e continua a aquecê-la hoje: a família.
Ensinou-me o significado deste conceito.
Tem 60 anos e é meu pai.
26 comentários:
E é uma história muito parecida com a do meu pai. Por isso, obrigada por a colocares em palavras.
bj*
Lindo!
Parabéns!
Fica bem.
Bjs.
:)) e mais ainda não é 6ªF! ;)
Parabéns! Aos dois!
(li agora o titâlo, liguei o fusível, relacionei postas, fiz um auto-dahh, e mm sem ser o aniversário mantenho os parabéns LOL)
e junto-me à Loira, que com mais 3 irmãos e sem sair da mm cidade, se o meu pai lesse este post ia certamente identificar-se. podiam era ter dado ao mundo mais exemplares LOL
:)
eu não me devia emocionar no meu local de trabalho mas foi o que acabou de acontecer.
parabéns ao teu pai.
*
dahh para mim também...
(mas parabéns de qq forma...por tudo!)
E eu fiquei de lágrimas a cairem, sou uma lamechas. Tantas experiências, e tão diferentes das nossas.
Beijinho ao avô Flores. Parabéns!
Tive o prazer de conviver com o teu pai num maravilhoso fim-de-semana e não conhecia a história de vida dele, ainda que tivesse noção de que além de um homem culto e bem formado era/é, sem qualquer dúvida, um homem com uma história de vida, carregada no semblante e no sorriso.
Parabéns pelo pai que tens!
Grande pai que tu tens, parabéns aos dois!
Beijinhos
O épico anónimo.
Descreveste-o tão tão bem.
Obrigada a ti.
kiss
Na história do teu pai, li a do meu (e também a da minha mãe).
BEijinhos
fiquei comovida...
...pois!!!
Faziam-se à vida muito cedo!
Nota-se que te orgulhas do teu papá!
Bjs
Tem tudo de semelhante com o meu, até a idade!
O meu pai tinha 11 anos quando veio para Lisboa. 11 anos...
É a nossa (portuguesa) historia. Parabéns!!
Muito parecida com a história do meu pai. Com a diferença que o meu era o mais novo e que voltou para a terra para casar.
Já nós (dois dos filhos) saímos e não se prevê a volta.
Parabéns pelo pai e pelo exemplo.
Beijinhos
:)
Lindo
bjkas para ti e para os cachopos
Lindas palavras, lindos sentimentos.
Um GRANDE PAI, tens muita sorte querida :D
Deixaste-me emocionada com este post, parabéns ao teu pai e que viva muitos anos!
Beijinhos
Que lindo texto flores... q linda homenagem..
:)
:')
flores...
um beijo!
Tinhas de vir de bons genes, minha Frô.
Um beijo ao teu pai, corajoso e perseverante.
É realmente uma história bem portuguesa, pelos comentários. O meu sogro tem uma história semelhante, de uma aldeia de Trás-os-Montes, veio para Lisboa, muito novo. O meu pai também saiu de casa novo mas por politiquices... Outra geração!
Belo agradecimento...
Cristina
Agora percebi porque és assim!
Só podia.
Mts parabéns ao papá! E pelo trabalho que ele fez!
Bjs grandes
Parabéns pelo lindo texto.
Parabéns ao teu pai pelo homem que se tornou.
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